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Abastecendo o carro elétrico com carvão

Abastecendo o carro elétrico com carvão

Depois de décadas de globalização intensa e muita geração de riqueza, a principal preocupação dos líderes mundiais se tornou: cuidar do meio ambiente e da sociedade, valores extremamente louváveis.

Nesse ambiente e com esses fins, o ocidente decidiu:

  1. Desincentivar o investimento na exploração de recursos minerais como óleo, gás e minerais metálicos penalizando instituições financeiras que promoviam tal financiamento;
  2. Impôs tarifas importantes no principal exportador de produtos industrializados a preços baixos para o mundo, a China;
  3. Fez um estímulo fiscal e monetário criando demanda muito maior do que a oferta de bens poderia atender, já que os trabalhadores continuavam confinados em casa por conta da política sanitária para enfrentar o COVID;
  4. Impôs sanções econômicas a um dos principais produtores de energia, metais e alimentos do mundo, a Rússia.

Agora a sociedade ocidental começou a colher os custos de suas escolhas na forma de preços mais altos de combustíveis, alimentos e bens industrializados causando um empobrecimento
da sociedade. Além disso, estamos tendo um retrocesso ambiental importante com Alemanha, Áustria e Holanda religando suas usinas de energia a carvão, a energia mais poluente. Quase uma ironia lutar para trocar toda a frota de motor a combustão por elétrico para ter que carregar as baterias com carvão.

Para completar o cenário do empobrecimento e deterioração do meio ambiente, os bancos centrais estão subindo as taxas de juros com vigor para que os preços mais altos dos produtos não contaminem o resto da economia elevando o preço de serviços e salários. O Federal Reserve acabou de fazer o maior aumento de juro em 25 anos e novos aumentos estão por vir.

O preço do dinheiro mais elevado muda todo o incentivo da economia da inovação, que contratava pessoas qualificadas em alta velocidade, na medida em que as empresas que não geram lucro terão muita dificuldade em levantar novas rodadas de capital.

Você deve estar se perguntando: então a lógica econômica das últimas décadas foi virada de cabeça para baixo? A resposta é sim! A próxima pergunta é: até quando isso vai durar? Ainda por um tempo porque muito pouco está sendo feito do ponto de vista político para reverter o cenário.

A França acabou de eleger uma grande bancada Verde para a Assembleia Nacional, O Biden mandou cartas para as empresas de petróleo e de frete marítimo perguntando por que elas estão lucrando tanto com preços elevados, a China ainda não terminou a sua política de zero Covid e a guerra no leste Europeu continua, ninguém ofereceu um caminho diplomático para encerrá-la.

Até novas políticas que mudem a estrutura mundial de oferta de produtos iremos conviver com a escassez. Você investiria numa refinaria de petróleo para produzir diesel se as lideranças do seu país dizem que querem acabar com o carro com motor a combustão nos próximos 10 anos? Se a resposta for não, temos que o preço do diesel em relação ao petróleo vai ficar bem alto mesmo.

Por isso vemos um mundo em que commodities vão ficar valorizadas por um bom período e as empresas que as produzem terão lucros extraordinários em horizonte relevante. Vemos o ajuste de curto prazo sendo feito pela redução do ritmo de atividade econômica no mundo, um período de baixo crescimento que começa a se desenhar com clareza. Com a desaceleração em marcha devemos estar muito perto do pico da inflação no ocidente.

No Brasil, o pico provavelmente ocorreu em maio e a redução da inflação de curto prazo deve
ser ajudada pelo corte relevante de impostos sobre bens essenciais. O pico da inflação nos leva a uma alocação importante em utilities que têm fluxos de caixa de concessões longas e se beneficiam do fim do ciclo de alta de juros.

O fim deste ano marcará o início das mudanças políticas necessárias para enfrentar o desafio
da escassez que nos confronta. Em outubro e novembro teremos mid-term elections nos EUA,
a indicação do Xi Jin Ping para um terceiro mandato na China e as eleições gerais no Brasil.

Com as eleições nos EUA, os republicanos devem assegurar maioria no Congresso encaminhando políticas importantes para melhorar a oferta de petróleo. Na China, com o fim da incerteza eleitoral teremos uma política mais branda para o COVID melhorando a oferta de bens industriais no mundo. No Brasil, teremos clareza de quem será a nova liderança e dos caminhos apropriados para novos investimentos.

Escrito por: Igor Barenboim